Acumular imagens. Transportar-se para um álbum. Coagular o corpo ao mundo e aos seres. Ser para fora, distensão da alma no espaço.

Acumular imagens. Elencar tudo num enredo e construir contornos. Trazer no rosto a estampa das paisagens.

Acumular imagens. Reunir os cacos. Ouvir oráculos. As pedras pelo caminho. Roçar a pele das cores. Recolher as pegadas, as gotas de suor que salgaram a terra.

Acumular imagens. Acumular a mesma imagem. Rebobinar as cenas. Reenunciá-las, regozá-las, redestruí-las. Reduzi-las a pó. E começar de novo.

Acumular imagens. Deixar que fluam pela corrente. Que transbordem. Imagens suculentas. Imagens em metamorfose, psicodélicas, tudo o que foi vivido em um devaneio. Imagens em queda livre.

Acumular imagens. Imagens da água e do oxigênio. Ofuscantes: todas as que cegam. Cair num abismo de luz e extrair a imagem-primeira. Mãe de todas, registrada nos primórdios. É uma folha em branco.

Ao acumular imagens também se tornar imagem. Espasmos do sentido. A sombra de um pigmento. Integrar-se enfim. E se abandonar, ofegante, aos rastros do Tudo.

Dia dos namorados. Não se trata de saber se os solteiros ou os comprometidos são mais felizes. Não se trata de julgar uma ação de marketing e se a expressão do meu afeto entra ou não em mais um clichê capitalista. Não somos inocentes a ponto de acreditar que por trás da palavra amor só existam boas intenções. Amor já foi usado como desculpa para muita destruição. Nada de novo sob o sol.

Há quem sinta amargura, rancor, ironia ou qualquer outro tipo de desprezo diante dos apaixonados que celebram essa convenção social. Eu prefiro a ternura. Que todos expressem à vontade o próprio amor. Como disse Santo Agostinho, “Ama e faz o que quiseres”. A partir do momento em que o amor é sentido de fato, isso tem como consequência boas ações, abertura ao próximo e honestidade consigo mesmo.

Pela sua reprodução ou rejeição, o dia dos namorados fala antes de tudo sobre como amamos. Nosso modo de amar fala de nós. Todos esses corações vermelhos que desenhamos na infância e que estão espalhados por aí hoje deveriam então nos levar a perguntar se estamos ou não em conexão com o próprio coração – e o quanto desenvolver laços com o outro permite que eu me mantenha conectado também a mim mesmo, a minha história.

Amar alguém faz parte de um amor maior, o que eu tenho pela vida. Quando eu percebo uma planta, acaricio um animal ou quando sinto o simples ato de respirar com gratidão, também estou amando. Amar é consequência de um jeito de viver. Solteiros ou acompanhados, todos amam. E qualquer que seja a loucura da qual nosso amor tomará forma, só podemos amar de verdade quando não abandonamos quem realmente somos.

É assim que o sorriso da criança interna de cada um se reproduz naturalmente na ternura compartilhada com o seu amor.

Kerouac em “Dharma Bums”, again:

“One night in a meditation vision Avalokitesvara the Hearer and Answerer of Prayer said to me ‘You are empowered to remind people that they are utterly free’ so I laid my hand on myself to remind myself first and then felt gay, yelled ‘Ta,’ opened my eyes, and a shooting star shot. The innumerable worlds in the Milky Way, words. I ate my soup in little doleful bowlfuls and it tasted much better than in some vast tureen… my Japhy pean-and-bacon-soup. I took two-hour naps every afternoon, waking up and realizing ‘none of this ever happened’ hanging in an ocean of endless space and here were all these people sitting in theaters watching movies down there in the world to which I would return… Pacing in the yard at dusk, singing ‘Wee Small Hours’, when I came to the lines ‘when the whole wide world is fast asleep’ my eyes filled with tears. ‘Okay world,’ I said, ‘I’ll love ya.’ In bed at night, warm and happy in my bag on the good hemp bunk, I’d see my table and my clothes in the moonlight and feel, ‘Poor Raymond boy, his day is so sorrowful and worried, his reasons are so ephemeral, it’s such a haunted and pitiful thing to have to live’ and on this I’d go to sleep like a lamb. Are we fallen angels who didn’t want to believe that nothing is nothing and so were born to lose our loved ones and dear friends one by one and finally our own life, to see it proved?… But could morning would return, with clouds billowing out of Lightning Gorge like giant smoke, the lake below still cerulean neutral, and empty space the same as ever. O gnashing teeth of earth, where would it all lead to but some sweet golden eternity, to prove that we’ve all been wrong, to prove that the proving itself was nil…”

29 anos – na melhor versão de mim mesmo, mas tendo em frente muito o que percorrer. Não vejo claramente um modelo com o qual eu deveria me comparar para ver se estou seguindo um bom caminho. Mas talvez envelhecer seja mesmo aprender a caminhar à noite, sem saber direito aonde se vai chegar. É aceitar a imprevisibilidade de tudo. Por vezes tornando-se presa do acaso, dos turbilhões, dos imprevistos, por vezes, guiando-se aos tatos pela intuição e pelos afetos. As coisas vão me atravessar. Ficarão comigo algumas memórias. E logo adiante mais vida vai aparecer. Com ela, mais noites cheias de estrelas, ruído de grilos, vultos, meus passos, a mochila nas costas com tudo o que tenho de mais valor. Se canto pelo caminho, tenho no eco da minha própria voz companhia. Acampo quando me sinto cansado, acendo fogueiras no frio. Com fome, eu me alimento do que a natureza me oferecer.

A cada estímulo uma reação. Tudo começa nos reflexos.  Neles se encontram a expressão primeira da minha vida e toda a sabedoria do meu corpo.

Por onde eu seguir, então, que haja lucidez.