Uma silhueta se dissolve no vento. É o porvir que se desfez. Ela estava prestes a entrar na memória, mas escolheu a imaginação. Eterna: onde primeiros encontros recomeçam e reterminam.

Um dia, ela o aguarda com um guarda-chuva sob a garoa. No outro, chega atrasada e pede desculpas. Vão a restaurantes, bares, apartamentos. Trocam olhares por sobre uma taça de vinho. Caminham pelas ruas trocando confissões sem perceber.

Devoram-se com os olhos, depois mãos, bocas e pernas.

Agora são castos, amigos confidentes. Tomam um sorvete na praça, contemplam o céu.

E as nuvens lá em cima têm várias formas, como os dois. São coelhos, leões, pássaros, cães e gatos de estimação. Avançam juntas na mesma direção. Tornam-se um só teto prateado.

E se despedaçam em chuva.

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Ele sonhava com frequência que voltava para a época da escola. Faltava terminar uma disciplina do terceiro ano. A matéria com que sonhava normalmente era história. Mas nunca teve problemas com o conteúdo. O motivo de ter que refazê-la é porque ele se ausentara em muitas aulas. Concentravam-se num único dia da semana e, por alguma razão, faltava sempre nesse dia.

Não consegue lembrar o motivo. Nos sonhos, ora ele tinha outra ocupação mais importante ora parecia que ficara doente em casa. Ele respeitava o professor de história. Lembra seu nome até hoje. Sabia que tinha feito uma faculdade de prestígio. Naquela época, ele dava mais valor aos professores que apresentavam melhores diplomas. Hoje tem uma simpatia prévia por qualquer professor antes de conhecê-lo.

Nos sonhos, resignava-se a frequentar as aulas aos vinte e tantos anos, como se fosse algo natural. Estava apenas cumprindo um protocolo. Aquilo era equivalente a uma disciplina pendente na universidade. Logo tudo estaria resolvido. Ao mesmo tempo, era atravessado por impressões opostas. Enquanto caminhava pelo prédio escolar, sentia-se bem estimado pelos outros alunos e pelos professores. Eles têm orgulho dele. Mas também havia um desconforto e sempre que acordava, tranquilizava-se por não ter que ir para a escola de novo. Tudo não passara de um sonho.

Transcorriam alguns meses e seu inconsciente repetia a narrativa. Lá estava ele de novo, nos corredores acinzentados. Cruzava com o olhar benevolente do professor de história dentro da sala de aula. Sentava-se a uma carteira de madeira escura, pichada com liquid paper, trazendo também letras talhadas a tesoura, somas feitas a lápis, desenhos de todos os tipos. De um lado, avistava um garoto de boné azul e com um caderno debaixo do braço, do outro, havia uma garota oriental de Allstar preto e caneta rosa na mão. O sol entrava pelas janelas à esquerda iluminando toda a sala. O único ponto escuro era o quadro, de onde deveria extrair todo o conhecimento de que os professores falavam. Lembra-se que achava importante copiar a lição. Mas agora de volta à escola tem uma ingênua superioridade em relação aos demais. Para ele,  é mais importante tentar entender o conteúdo que reproduzi-lo.

A escola é pública. Nunca havia pisado numa escola privada. No terceiro ano, começou um curso pré-vestibular à tarde e a importância da escola onde estudava havia sete anos foi diminuindo. Também nesse ano brigou com um grupo de garotos de outra sala. Recebia ameaças. Temia ser pego numa emboscada.

Encontrou a primeira namorada no cursinho. Diante da sua desenvoltura, diante do nível que estavam os outros alunos para prestar o vestibular, passou a ter raiva da própria escola. Passou a ter raiva de si mesmo por não conhecer os grupos musicais que eles gostavam, pelas roupas que vestia, pelos erros de português, por uma insuficiência em relação ao novo mundo. Ainda ia para a escola, mas ficava grande parte do tempo alheio ao cenário, estudando para o vestibular. As paredes ao seu redor iam se apagando, os sons dos outros colegas eram abafados pelas novas bandas que ouvia no disk-man, o coração se fechava aos amigos e a outras garotas. Tornou-se fiel a um universo que mal conhecia.

Talvez nunca terminara mesmo o terceiro ano. E sabia que aqueles sonhos queriam lhe dizer algo. Quando pensa neles durante o dia, nessa insistente repetição, tem a mesma impressão de quando levanta em um ônibus e olha pela última vez o banco onde estava sentado para confirmar se não deixou para trás algo de valor. Os sonhos são como este golpe de vista voltado para o passado antes que ele possa seguir adiante pelo seu caminho. Mas parecem lhe pedir mais do que um olhar de relance. São como uma mensagem sussurrada ao pé do ouvido:  “Faço parte da sua história. Mas que possa contá-la, é preciso não esquecer quem sou eu“.

 

“Homens sem mulheres”. O conto em que Murakami encontra Camus.

“Um dia, de repente, você vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará subitamente, sem nenhum aviso prévio nem sinal, sem premonição sem pressentimento, sem uma tosse que seja ou uma batida na porta. Ao virar a esquina, você vai descobrir que já está ali. Mas não poderá voltar atrás. Uma vez que virar a esquina, será o único mundo para você. Nesse mundo você estará entre os “homens sem mulheres”. Em um plural infinitamente indiferente.”

Cabe muita coisa em um texto, seja um post de Facebook, seja uma tese de doutorado. Eu, particularmente, gosto de pensar no quanto algumas palavras expressam a presença de uma pessoa, o quanto eu posso enxergar seus gestos através delas. Quero ver num texto os contornos de um corpo. Mas, diante do texto mais extenso que já escrevi, não me enxergo assim tão bem. Talvez veja somente alguns pedaços de mim. O que mais me salta aos olhos são os rostos de outras pessoas. Da professora de português de uma escola na periferia de São Paulo, passando por uma mentora chilena na universidade até chegar à filha de um escritor consagrado. É diante delas e de algumas outras pessoas que sabem a importância que têm no meu percurso, me lembrando da voz de todas elas, que hoje depositei minha tese de doutorado. E no mar de todas as palavras escritas nos últimos meses, duas ecoam com mais força: ternura e gratidão.

Acumular imagens. Transportar-se para um álbum. Coagular o corpo ao mundo e aos seres. Ser para fora, distensão da alma no espaço.

Acumular imagens. Elencar tudo num enredo e construir contornos. Trazer no rosto a estampa das paisagens.

Acumular imagens. Reunir os cacos. Ouvir oráculos. As pedras pelo caminho. Roçar a pele das cores. Recolher as pegadas, as gotas de suor que salgaram a terra.

Acumular imagens. Acumular a mesma imagem. Rebobinar as cenas. Reenunciá-las, regozá-las, redestruí-las. Reduzi-las a pó. E começar de novo.

Acumular imagens. Deixar que fluam pela corrente. Que transbordem. Imagens suculentas. Imagens em metamorfose, psicodélicas, tudo o que foi vivido em um devaneio. Imagens em queda livre.

Acumular imagens. Imagens da água e do oxigênio. Ofuscantes: todas as que cegam. Cair num abismo de luz e extrair a imagem-primeira. Mãe de todas, registrada nos primórdios. É uma folha em branco.

Ao acumular imagens também se tornar imagem. Espasmos do sentido. A sombra de um pigmento. Integrar-se enfim. E se abandonar, ofegante, aos rastros do Tudo.

Dia dos namorados. Não se trata de saber se os solteiros ou os comprometidos são mais felizes. Não se trata de julgar uma ação de marketing e se a expressão do meu afeto entra ou não em mais um clichê capitalista. Não somos inocentes a ponto de acreditar que por trás da palavra amor só existam boas intenções. Amor já foi usado como desculpa para muita destruição. Nada de novo sob o sol.

Há quem sinta amargura, rancor, ironia ou qualquer outro tipo de desprezo diante dos apaixonados que celebram essa convenção social. Eu prefiro a ternura. Que todos expressem à vontade o próprio amor. Como disse Santo Agostinho, “Ama e faze o que quiseres”. A partir do momento em que o amor é sentido de fato, isso tem como consequência boas ações, abertura ao próximo e honestidade consigo mesmo.

Pela sua reprodução ou rejeição, o dia dos namorados fala antes de tudo sobre como amamos. Nosso modo de amar fala de nós. Todos esses corações vermelhos que desenhamos na infância e que estão espalhados por aí hoje deveriam então nos levar a perguntar se estamos ou não em conexão com o próprio coração – e o quanto desenvolver laços com o outro permite que eu me mantenha conectado também a mim mesmo, a minha história.

Amar alguém faz parte de um amor maior, o que eu tenho pela vida. Quando eu percebo uma planta, acaricio um animal ou quando sinto o simples ato de respirar com gratidão, também estou amando. Amar é consequência de um jeito de viver. Solteiros ou acompanhados, todos amam. E qualquer que seja a loucura da qual nosso amor tomará forma, só podemos amar de verdade quando não abandonamos quem realmente somos.

É assim que o sorriso da criança interna de cada um se reproduz naturalmente na ternura compartilhada com o seu amor.